quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Carta aberta aos amigos...


Caminhar na vida é acumular. Não deixa de ser. É trazer experiências, reflexões e saber superar os próprios karmas (em um sentido metafórico) da existência e de suas circunstâncias. Perdas & Ganhos, poderia dizer alguns. No pain, no gain: um outro ditado. Eu diria que até as perdas revelam ganhos a depender do ponto de vista. Por quantas vezes, o fim do mundo era só uma placa na autoestrada com a inscrição “bem-vindo ao mundo novo”.

Nem as lembranças que acumulamos são fiéis ao fato que as geraram. As interpretações que damos, os filtros que trabalham tais fotografias fazem com que cores especiais sejam ressaltadas. Nossas lembranças nos levam a aprendizados fantásticos. Muitas vezes, um mesmo fato nos empurra para várias lembranças, para cores diferenciadas, para interpretações múltiplas, para vários aprendizados. E lá vamos nós acumular.

Somos passageiros e bagagens. Por mais que estejamos parados. Caminhamos e acumulamos, muitas vezes sem domínio sobre o que devemos levar e o que temos o poder de deixar para trás. Sou capaz de apostar que o passado que enxergamos hoje, não é de fato o passado que aconteceu. Sou capaz de apostar que a busca por um sentido interfere de maneira decisiva na compreensão do passado, na forma como enxergá-lo, na dimensão que damos a alguns fatos que na visão de um terceiro poderia ser tido até como algo imperceptível a olho nu.

Por sinal, os maiores acontecimentos – afinal, a morada dos “deuses e demônios” são os detalhes! – estão invisíveis ao olho nu. Mas, saltam aos nossos olhos de forma impressionante. Dão peso, volume, densidade à bagagem e  nos ajudam a enxergar sentido no caminho. Olhar para trás é interligar pontos. Um porquê, um como, um motivo, uma razão, uma missão, enfim...chegamos até aqui!

Lembra-me uma trecho de uma canção do cantor e compositor Humberto Gessinger: “se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual”.  Frase simples, mas genial. Aliás, como toda a simplicidade que é cirurgicamente precisa. Às vezes, o complexo é só alegoria e a simplicidade água pura que mata a sede e nada mais!

Com o tempo, com o acumulo dos dias a gente vai aprendendo – se tivermos o interesse de aprender – a separar o joio do trigo nessa área tão empestada de intelectuais que acumulam milhas ao devorarem livros, mas nunca se destinam a uma viagem por conta própria, se é que vocês me entendem.  Eu posso estar completamente errado, mas não deixo acumular milhas no cartão de crédito...

E nessa autoestrada (tomando como gancho o texto anterior) se tem uma coisa que me orgulho de trazer na “bagagem” é o milagre de desfrutar plenamente desta indefinível relação entre os humanos que o dicionário na ausência do poder de definir melhor chama de amizade. Eis o milagre mais belo com o qual pude me deparar. Não tenho muitos amigos, mas trago a certeza de que tenho os melhores.

Orgulho-me deles. São os que ajudam no caminho, são os que ajudam a olhar o retrovisor.  Acho que Voltaire fala melhor que eu sobre este assunto. Diz ele que a amizade é contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Lembrando que os sensíveis podem ser pessoas de bem e mesmo assim não conhecerem a amizade, daí a necessidade de usar todo este acumulo de experiência, toda a bagagem no sentido de fortalecer as virtudes, o bem, nos tornarmos melhor do que nós mesmos.

Pois são estas que nos diferenciarão dos demais ao longo da jornada. Nesta autoestrada – bem lembra Voltaire – que os malvados caminham com cúmplices, os festeiros com companheiros de farra, os ambiciosos só terão sócios, os políticos vão com seus partidários, os vagabundos com os lucros de seus contatos, os príncipes com os puxa-sacos e os que enxergam o virtuoso da vida caminharam sempre com amigos.

Eis o que de mais belo trago, eis o que de mais belo procuro oferecer a quem comigo caminha, caminhou e caminhará. Por isto, apesar de eventuais derrotas, as perdas me revelaram o que de melhor eu sempre tive: amigos!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O medo e a autoestrada...vamos lá!


Tenho um medo terrível de autoestradas. Nunca gostei de dirigir e o pavor de longos trechos com uma velocidade acima da “minha” média – que é mínima - me assusta demais. Mas, sempre acreditei que devemos enfrentar nossos limites, mostrando que somos maiores que nossos medos. Isto faz com que eu enxergue o medo – que por vezes é o outro lado da moeda quando uma das faces é a coragem – como algo sadio.

Um alerta sobre o qual podemos racionalizar e assim superar. O medo não pode paralisar. Ouvi essa frase – assim de forma simples! – em uma canção dos Engenheiros do Hawaii. O último CD da banda até o presente momento. A canção chama-se Quebra-Cabeça. O verso completo é o seguinte:

Pode estar no ponto
Ponto de interrogação
Pode ser encontro
Ou separação
Pode correr risco
Arriscado sempre é
Só não pode o medo te paralisar

É um sentimento semelhante com o qual me deparo quando pego a autoestrada. Sempre um desafio que eu mesmo estou me impondo. Sempre um medo que estou vencendo e não me paralisando. E sempre, entre o ponto de partida e o ponto de chegada, um ponto de interrogação.

Por mais que o caminho seja o mesmo, nunca é a mesma viagem. Metaforicamente e literalmente também. Os pontos de passagem, os imprevistos possíveis em uma autoestrada, o posto de combustível onde vamos parar, o que escolher para comer, as conversas que terei – com quem me acompanha – até chegar ao local esperado. Tudo isso vai auxiliando a desafiar o medo e a não paralisar. Quando menos se espera a viagem finalizou e chegou satisfeito comigo mesmo ao fim da jornada.

Para mim é a autoestrada. Pode ser uma bobagem para o leitor que se depara com este texto neste momento. Mas, para você, caro leitor, tal desafio pode não ser a “highway”, mas algo bem simples mesmo. Tenho um amigo – por exemplo – que este desafio consiste em ir a locais com grandes multidões. “Toda vez que estou aqui estou vencendo a mim mesmo e esta é uma vitória diante de algo tão simples, mas que só eu tenho a dimensão dela”, disse-me uma vez. Concordo com ele integralmente.

Acredito que todo ser vivente deve ter seus “medos imbecis” que proporcionam “vitórias interiores”. Bem, ou talvez eu espero que todo mundo tenha para que eu não soe tão maluco assim. Né?

Só para situar o leitor do ridículo dado que para mim tem tamanha importância: nos últimos 30 dias peguei a autoestrada 4 vezes e tenho programado – junto com a família – viagens cada vez mais longe. Quem saiba não vá ao Sul do país de carro? Eu voltaria um outro eu. Podem estar certo disso. Voltaria o cara que escreveria na sua história um feito de heroísmo tamanho que me credenciaria a estar no próximo ônibus espacial com destino a Marte (e no volante da nave!).

Por enquanto, a maior distância: 300 e poucos quilômetros a uma velocidade média de 90 km/h. Este é o dado concreto. Vamos aos reais: coração com sensação plena de que tudo é possível, corpo com a disposição de pular todo tipo de barreiras, alma com a compreensão de que o medo não pode paralisar mesmo,  certeza de que não se pode abandonar a poesia na dificuldade de concluir o primeiro verso...e por aí vai. Dados reais? Sim! Mais reais que estes para mim é impossível. Você deve saber bem disso nos seus pequenos medos.

Sabe aquele meu amigo? Um dia ele chegou todo orgulhoso de si: cara, eu fui a um show – em algum lugar do mundo que eu não lembro – que tinha mais de 100 mil pessoas. Eu nem gostava da banda, mas sai de lá gostando mais de mim. Juro, é assim que desço do carro depois de 300 km de autoestrada. Valeu a pena cada curva que detestei fazer.

Estrada
(Luis Vilar)

Estrada em frente
Sempre enfrente
Não há outra solução aqui

Cada curva
Pequenas lutas
Entre descansos até um fim

Próxima parada
Próximo movimento
Um mundo conhecido pode desabar

Quem sabe eu mesmo
Já não seja mais o mesmo
Quando for a hora de voltar

Quando o pé pisar a estrada
O coração pisará fundo em outro lugar
Quando a autoestrada já não significa nada
Serei mais triste apesar de tudo aqui me desafiar

Estrada em frente
Sempre enfrente
Não há outro jeito de continuar

Cada curva
A inteligência contra a força bruta
Entre descansos; mas nunca parar

Quando o pé pisar a estrada
O coração pisará fundo em outro lugar...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Voo solo!


Gosto da expressão “voo solo”. Já utilizei em alguns textos, poemas, enfim...me remete a sair na completa solidão de um céu aberto a todas as possibilidades. Traçar a rota nunca antes traçada e encontrar um sentido em pleno céu azul. Algo que só pode ser feito - de fato! - sozinho. É sozinho, deitado no grama, olhando para o céu que as nuvens tomam formas engraçadas. Cada uma que se pareça com o que a mente conseguir imaginar ou impor. 

O céu azul - em voo solo - vai ganhando sentido. Vamos compondo, entre experiências, aprendizagens; valores absorvidos, questionados, refutados, assimilados, devorados, mastigados e cuspidos...e, quando menos se espera, somos nós. E no voo solo, somos nós por inteiro, questionando tudo, sem pudores. Eu e as minhas circunstâncias; eu e o meu pior carrasco. 

O “voo solo” é essencial. Casa fechada, luzes apagadas, madrugada, ninguém ao lado. Asas abertas e vamos lá...rumo ao céu imaginário. No máximo, canetas e papéis. Registros quase que psicografados de uma alma que habita um corpo estranho. O momento posto em verso...o momento em que corpo e alma não se encaixam. Por vezes nesse “voo solo” não encontro semelhança entre o meu físico e o que carrego por dentro, seja pisquê, alma, ou que definição se queira dar...

De chinelos velhos, pijama e xícara de café ao lado...um espírito de 70 anos de idade em um corpo de 33. A alma na frente do corpo; o corpo lamentando e xingando a alma por ser ele a sentir os primeiros desgastes. Pois é! Acho que envelheci cedo demais. E ao mesmo tempo me tornei extremamente cético. Meus “voos solos” são o máximo de contato com uma suposta espiritualidade, mesmo assim sem qualquer pitada de conceito religioso nisso. 

Quando falo em espiritualidade, falo de mergulho na subjetividade. Da busca da genealogia das próprias crenças, dos próprios valores, como frisei lá no segundo parágrafo. Seria um saco repetir novamente. O retorno desses voos - por incrível que pareça! - é sempre marcado por extrema produção. Muitos poemas, muitos textos aleatórios - sejam para o Conversas de Quinta ou para o Blog do Vilar. É tarefa do escritor: ser contemplativo “minutos” antes da “explosão”. 

O engraçado é a forma como costumo trabalhar isto em fases. Ultimamente estas “explosões” vão ganhando forma numa mistura entre verso e prosa. O meu medo é que não tenha sentido para o leitor, porque para mim vai fazendo o total sentido, descobrir-me enquanto eu mesmo escrevo. Casar uma prosa com uma poesia que nasceram quase que simultaneamente. Variações sobre um mesmo tema. Acho até que já falei sobre a questão neste espaço. 


Voo solo

Quando o céu azul é a casa do pássaro
E o ninho é só um porto para descansar
Quando tudo é possível e não há caminho 
Nem qualquer sentido desenhado no ar

Quando tudo pode ser questionado
O que foi consumido e o que está para se consumar
Quando o sentido pode ser ilusório
Assim como tudo tem seu contraditório a nos visitar

O que a gente teima em querer encontrar
Que não está aqui, mas pode estar em qualquer lugar?

Quando o céu azul te chama a sair da ilha
E você perde a trilha observando as nuvens desenhar
Quando a alma quer sair correndo
Apesar do tempo andar perigoso para quem quer sonhar

Quando as asas se abrem a um novo pensamento
E já não tem mais como o coração voltar 
A ser tão pequeno e a bater longe deste sentimento
Que encontrou o céu aberto e quer te empurrar

O que a gente teima em querer encontrar
Que não está aqui, mas pode estar em qualquer lugar?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Eu converso; eu com verso...


Um poema nasceu da conversa com o amigo e jornalista Carlos Melo, sobre as dificuldades de um primeiro passo de um projeto, sobre a luta e suas consequências, sobre como – depois da vitória conquistada – algumas pessoas olham e diz assim: “mas era provável que isto acontecesse!”.

Sobre – ainda! – os “tapas nas costas”, a “torcida do contra” e tudo isso que vem de quem não tem coragem de abandonar sua própria redoma, de quem teme os riscos a ponto de nunca deixar a zona de conforto. Quem ama versos no papel e nunca se arrisca a compor a própria poesia...

Viver é mais que respirar!

Assim como os projetos que queremos para nossas vidas devem envolver mais que querer dinheiro, ainda que este seja necessário, evidentemente.

Tenho pouco, mas daqui da varanda onde escrevo, com a xícara de café soltando sua fumaça, a contemplação do céu azul, com minha filha ao lado jogando seu Nintendo, eu trabalho feliz.

Escrevo em um momento de felicidade, porque mesmo diante das tristezas posso dizer: eu saio da redoma todos, todos os dias, mesmo quando não saio de casa literalmente.

Meu pequeno reino vem sendo feito por mim, sem bajulações, sem puxa-saquismos e – sobretudo – sem desejar mal a seu ninguém. É um pequeno universo de conquistas e derrotas. Algumas derrotas graves ao ponto de me fazerem quase desistir, mas que no fim das contas – até aqui – tem me feito acreditar no lema: “o que não mata fortalece!”. E bola para frente, rumo ao amanhã. 

Sem esperar melhor hora diante de todas as horas que possuem o dia, eu penso em melhorar a cada hora, todos os dias.  Tanto que, das mais simples conversas, nascem meus rabiscos que são sempre variações de um mesmo tema. Rabiscos? Sim, mas os poemas que que queria ler e que alguém não fez, então eu faço, todo dia, todo dia, todo dia...

Na Redoma
(Luis Vilar)


Na redoma
Satisfeito
Sem nenhum desespero
Esperando a melhor hora de acordar
Como se houvesse melhor hora...
...dentre as horas de um dia
Como se houvesse melhor verso...
...quando são todos que formam a poesia

Na redoma
Aqui sem cheiro
Sem necessidade
Sem nenhum receio
Esperando o momento certo de acertar
Como se houvesse um só momento...
...com janela aberta e todos fatores de garantia
Como é lindo entender a vitória acontecida...
...desprezando os riscos que até então havia

Na redoma
O tempo inteiro
Passou janeiro, chegou janeiro
Nunca saiu de lá
Transparente, da redoma sempre viu a vida
Passou tantos dias a desejar
Como não haveria de invejar
E beber deste veneno todo dia
Sem nunca sair de lá...
Sem nunca sair do lar...

Na redoma, o único trabalho é respirar
Enquanto existir o ar
Mas eu quero mais, eu quero respirar poesia
Sei dos riscos que há
Os riscos de sair de lá
Os riscos de sair do lar

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Das esquinas, ex-quinas, neoquinas...enfim!


É preciso encarar a estrada com muita fé em si mesmo. Se você não a tiver, ninguém a terá por você. Simples assim! Não importa se o céu está azul, ou se a tempestade chegou mais cedo, todos os dias nascem com seus obstáculos e com seus milagres. Lançamos nossos planos - que por vezes são piadas para possíveis deuses - mas será sempre um milagre por vez. E falo a palavra milagre sem qualquer conotação mística ou religiosa. Até porque sou cético. E como cético, creio profundamente na existência do milagre. 

Parece paradoxal? Talvez não seja! Afinal, o acaso pode ser um grande gestor de milagres ao “administrar” o caos. A fé em nós mesmos nos impulsiona sempre em busca de sermos melhores. Acredito muito nisso. Por esta razão, sempre adotei o mantra: “que eu seja melhor hoje do que fui ontem. Não quero ser melhor do que ninguém, mas sempre melhor que eu mesmo”. 

Repito pra caramba esta frase - mentalmente! - no decorrer do dia. É uma oração sem ter um deus como interlocutor, mas tentando vasculhar em mim mesmo o que mais eu tenho a oferecer. No final das contas é o cultivar da fé em mim mesmo que vai me possibilitar também ajudar outro, a estender a mão. Vai sempre deixar bem clara a necessidade da humildade, pois tornar-se melhor é estar sempre de mente e coração abertos para aprender, mas sem abandonar a lógica e a coerência com os princípios que nos norteiam.

Espero estar me fazendo entender até aqui. Afinal, sempre são confusos esses textos sobre autoconhecimento, pois como explicar enquanto se autoconhece? São sempre textos que vão fluindo, vão nascendo e quando menos se espera você conseguiu escrever mais do que sabe, mais do que pensou que sabia, e ainda assim bem menos do que ainda tem para aprender. 

Mas, enfim...costumo ter alguns rituais bem particulares nessa busca por aprender sobre si mesmo. Andar sozinho e sem rumo por algumas ruas também é um deles. Daí - em alguns poemas - utilizar muito a palavra “esquina” como metáfora para inesperado. As metáforas são precisas justamente por não serem literais. Colocam com exatidão o que o denotativo jamais conseguirá explicar. Andar pelas ruas - literalmente falando - sem um lugar certo para chegar, sempre me apresentou novos caminhos (conotativo) ainda que as ruas sejam sempre as mesmas. 

Quantas vezes as esquinas próximas do meu prédio foram outras esquinas simplesmente porque uma das músicas do iPod revelou algo por meio de um verso. Quantas vezes não parei para anotar uma nova frase para um futuro texto. Acho que foi Heráclito que disse: “um homem não se banha no mesmo rio duas vezes”. É bem isto. E é um milagre. Cada dia com seus milagres. 

Lembro - há muito tempo - que um amigo me passou um MP3 com uma música para a qual ele queria que eu fizesse uma letra. Passei 30 dias escutando o som. Sempre de um lado para o outro. Sentava, tentava rabiscar uma letra e nada. Putz! Aquele exercício me deixava irritado. Gostei tanto do som inventado por ele, que eu queria que ali estivesse uma letra minha. Era questão de honra. Consegui escrever vários textos pensando naquela sonoridade, mas nenhum se encaixava. 

Depois de 15 dias, liguei para o amigo. “Cara, sem chance. Não consigo escrever. Pede para outra pessoa, sinto muito!”. Ele entendeu e assim foi feito. O MP3 acabou com uma letra dele mesmo. Meses depois, listei todas as MP3 do computador e comecei a escutar de forma aleatória enquanto terminava uma reportagem para um dos jornais que trabalhei. A quinta canção que tocou foi o som feito por meu amigo. Eis que me espantei, eu consegui pensar em toda a letra na hora. 

Liguei para ele contando o fato, mas já tinha ido. Ele nem mais tinha a banda que iria usar a canção. Mas, o exemplo ilustra bem o que quero falar aqui. O mesmo som e um novo som ao mesmo tempo. Uma velha esquina tão nova que me levou para dentro de mim, para saber o que eu não sabia que sabia. Eis um pequeno trecho do que foi escrito há tempos (é a parte que lembro. O resto se perdeu):


Pode ser com o céu azul
Ou nas tempestades que ainda vem
Ainda há tanto invisível a olho nu
Que todo dia é um milagre por vez
Quem sabe até...
...mais uma esquina que desfaz o que até hoje sei!

Em solidão...
...quantas vezes o silêncio não foi uma canção
...quantas vezes o espelho de um futuro que não se tem
...quantas vezes pareceu com uma tradução
...quantas vezes tão óbvio dentro de si mesmo; escondido tão bem
Esquinas inéditas nos caminhos pelos quais sempre passei...

Acho que os versos explicam mais do que todo texto que fiz. Palavras demais acabam atrapalhando o que só o silêncio pode dizer. Então, hoje é curtinho assim mesmo. Valeu pela companhia de sempre! 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Sempre pensar em voz alta!


No dia em que meu pai faleceu lembro que rabisquei muitas poesias como forma de suportar a dor. Fiz um texto - inclusive - no Blog do Vilar, no site CadaMinuto. É uma relação que tenho: grandes dores, muitas escritas. E quase sempre sem me importar muito com a qualidade do texto, mas deixando fluir o que vem na mente. Um rio que pouco se sabe onde vai desaguar...No fundo, todo rio deságua no mesmo mar. Ou como diria um sertanejo como meu pai: por aqui qualquer caminho vai dar na venda. 

Quem mora em cidades interioranas sabe bem disso. Mas, o interessante é que na relação com a escrita tu sabes bem o que coloca para fora, mas nunca vai saber ao certo o que tu colocas para dentro do outro; aquele navega durante algum tempo dentro do teu texto. Nesta vida de lidar com as palavras aqui e acolá - por exemplo - nunca soube quantas pessoas magoei e quantas ajudei. Lembro de um escritor - me falha o nome dele agora - que falava das dores de viver pensando em voz alta. É a vida de quem escreve. Pensar em voz alta!

Lembro de um leitor meu, por exemplo, que quando me encontrou em um shopping e conversamos rapidamente, ao se despedir disse: “cara, quando te lia eu imagina você com outra voz”. O tom foi meio de decepção. Acho que esperava um cara mais eloquente e eu sou tímido pra caramba. Um outro - em uma palestra - ressaltou o fato de eu ter “apenas” - nas palavras dele! - 32 anos de idade. Hoje tenho 33 se for levar em conta o calendário que todos nós seguimos (risos). Estas colocações sempre me pareceram mágicas. Eu - sem saber - já fui tantos eus tantas vezes na vida de quem me lê. 

E aí, uma reflexão: por menor que seja o texto, todo cuidado: ele vai para alguém; como uma mensagem colocada dentro de uma garrafa que o náufrago joga ao mar. Já chequei a falar sobre isto aqui no Conversas de Quinta. Está em algum lugar do passado. Falei sobre garrafas e mensagens. Logo, passei a acreditar - piamente - que o maior sinal de respeito com um leitor é pensar na forma dizer, mas nunca no conteúdo. Este tem que ser preservado. Não se pode poupar o leitor do conteúdo. Tem que ser honesto com ele. O que não dá é para ser agressivo. 

Por que digo isso? Porque sempre estou me colocando na contramão na opinião sobre alguns temas. Tipo: não sou o cara de esquerda pronto para defender todo tipo de Justiça Social em favor de uma entidade chamada povo que consiste sempre em ter voz por meio de uma minoria que chegou a poder por vias de partidos vermelhinhos! E olhe que este é só um exemplo. Aí, eu sinto, eu vejo, e lá vou eu escrever, meter minha caneta onde não sou chamado. 

E como disse lá no primeiro parágrafo, esse texto sempre deságua em vários lugares e sujeito a todo tipo de interpretação. Eis que as interpretações dadas muitas vezes geram conteúdos que eu jamais sonharia, mas nem nos melhores sonhos. Gosto delas. Mesmo quando erguem pontos de vista que jamais tinha parado para pensar diante do que eu mesmo escrevi. Por esta razão, as redes sociais - ao longo da minha profissão - se tornaram tão importantes. Viraram termômetros para que eu pudesse estudar o meu próprio texto, aprender aos poucos a ser mais preciso. Tenho conseguido isto com um certo êxito nos textos jornalísticos. 

Num outro sentido, também por meio destes estudos nasceu o Conversas de Quinta. Resumindo uma metáfora eu digo seguinte: o Conversas de Quinta é quando solto o nó da gravata, tiro os sapatos, estalo os dedos e deixo ir...e - consequentemente - volto a dialogar com a múltipla interpretação. Que me chega por impressões que não vem pelos comentários no próprio blog. Outro ponto interessante a ser analisado: as pessoas que lêem sentem a necessidade de falar comigo, pessoalmente, ou via chats sobre o que sentiram ao ler tais textos. Acho isso lindo! 

Numa dessas vezes, por exemplo, em meio a uma conversa sobre um texto daqui do Conversas de Quinta, mostrei um poema para um amigo que era o seguinte: 

Não saber o que falar...
...e ainda ter tanto o que dizer...
...ao te ver deixar a casa...
...ao te ver criar novas asas...
...e se impulsionar ao céu!

Não ter mais o que tentar...
...e precisar ter algo a fazer...
...que te faça ficar em casa...
...que te faça fechar as asas...
...e desistir de ir para o céu!

Mas, estamos sempre a postos para perder
Nunca estaremos preparados
Por mais que estejamos avisados
Por mais que o tempo nos ensine a sofrer

O amor é sempre inédito apesar das reprises que a gente vê
Como represar o rio violento estando deste lado
Se é lá do outro lado que deságua a certeza que vai nos vencer
E assim, eu perdi você...
...com um adeus que sempre deixa tanta coisa a dizer...
E assim, eu perdi você...
...com as dúvidas que me invadem sem saber se vou te rever

E ele me respondeu: “Cara, que belo poema de amor! A mulher que inspirou deve estar honrada”. E eu: “Cara, não é um poema de amor neste sentido. Fala da ausência de alguém que morre. Foi sobre meu pai e minha mãe, que já faleceram”.  Mas, logo depois disse: “mas encara pelo teu ângulo mesmo”. Ele então complementou: “é que pareceu tanto com a situação que vivenciei com uma garota!”. 

A onda de se ver no texto, né?! Viver pensando em voz alta. A vida do escritor. Aí olha só, esse amigo mandou o poema por email para a guria em questão. O poema foi o princípio de uma retomada de diálogo. Ela voltou pra ele. Essa história pude acompanhar; quantas não acompanhei e são tão interessantes quanto! Daí minha paixão pela escrita, sobretudo a sem amarras. Daí porque sempre vivo incentivando as pessoas a criarem seus blogs.  

Pois do mesmo jeito que minhas mensagens vão nas garrafas, chegam garrafas nesta ilha também. Daí ser imensamente grato a vocês leitores que permitem ao Conversas de Quinta, mesmo não sendo mais às quintas, continuar a existir. E por esta razão - para 2013 - o projeto de transformar este blog, junto com outros textos, em livro. Espero conseguir.