sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Ser(+)tão profundo


O Sertão do Estado de Alagoas foi sempre um lugar que me encantou por demais. Vejo uma beleza sem igual nas paisagens ainda quando em tempos ásperos. A varanda da casa de meu pai era prenuncio de madrugadas. Eu ali acordado com papel e caneta: sair tirando poemas da tinta vermelha da caneta, como se estivesse compondo versos com sangue em meio ao frio sertanejo; que castiga, que faz tremer de verdade. E assim, o papel - que aceita toda e qualquer coisa! - era preenchido até o amanhecer do dia, com a chegada da neblina. 
No fim das contas, não sabia se tremia em função do frio ou pela viagem pelo que andava escondido dentro de si mesmo. 

Eis os dias em que o Sertão soava ser tão profundo, ressaltava as cores da solidão em paradoxos brilhantes como o lirismo áspero da paisagem; a ingenuidade inteligente do matuto, a simplicidade sofisticada da vida sem outra preocupação que não o sentido da própria vida.

Foi numa viagem ao Sertão que - aos 16 anos de idade - li Aurora do filósofo alemão Nietzsche. Foi numa ida ao Sertão que li - um ano depois - O Lobo da Estepe de Hermann Hesse. Livros pelos quais guardo um especial carinho até esta data. 

Sem contar que numa das últimas idas ao Sertão - já eu mesmo no comando do carro - notava a sutileza de mudança do agreste para os campos sertanejos ao som de Todo Cambia de Mercedes Sosa. De fato a certeza de que tudo muda, até as paisagens em suas estações, até a estrada, até a viagem que nunca é sempre a mesma, apesar da mesma rota. 

E se Todo Cambia, que eu mude não é estranho, “grita” Sosa em meu ouvido no exato momento em que o agreste vira Sertão. A casa por lá não tem mais meu pai. Fica a maior parte do tempo fechada desde seu falecimento. 

O cotidiano apressado nos prende à capital. Preocupações que parecem imensas e - no entanto - são secundárias viram âncoras e passamos sem perceber sutilezas que são questão bem maiores na vida. Eu não vou muito ao Sertão, mas aquela sensação de solidão investigativa que aprendi na varanda da fazenda não sai de mim. 

Há um Sertão aqui dentro. Há um áspero lirismo por aqui, que muda conforme estações, que se submete às reflexões em busca do que anda escondido dentro de si mesmo. Que se interroga sobre o mundo “e sua vontade de representação” que encara a seca a espera da chuva e vai se molhar - quando ela chega! - valorizando o sabor de cada pingo de água. 

Há ainda por aqui os questionamentos como base no “ser e o nada”; esse existencialismo; esse lado gauche das “sete faces” do Carlos Drummond de Andrade; das cores que ficavam mais vivas quando o silêncio e o frio do Sertão eram companhia e cobertor das madrugadas. Não sei se algum outro maluco no mundo devota à geografia de um lugar um importante papel em sua formação intelectual. Mas, eis que eu confesso que o “maluco” aqui faz isto e com nostalgia.

Podem acreditar, o Sertão pode ser tão profundo...

sábado, 1 de setembro de 2012

Ecce Homo?! Esses mitos...


Vivemos um mundo de mitos. Cada qual com seu totem e sabe-se lá qual é a reza. Mitos nascem e caem ao sabor de ventos epicuristas. Nada muito profundo, nada muito na veia e toda fotografia que se faça do momento que seja cheia de efeitos photoshop ou filtros. 

Eu sempre preferi o lema “sem filtros, na veia”. Por isto tenho voltado a ler Nietzsche ultimamente. Dois livros em especial: A genealogia do Bem e do Mal e Crepúsculo dos Ídolos. Impressionante como soam atuais, mesmo precisando de eventuais releituras afastando da figura de Nietzsche o próprio mito que o intelectualismo babaca faz dele. 

Enfim, até hoje é tão incompreendido o filósofo bigodudo quando ele fala da morte de deus. Mas, isso é papo para outro texto. É só um parênteses.

Mas, como falei no início, o texto de hoje é sobre o mitos. Ou melhor, sobre a necessidade de fugir do mito da novidade imposta pelo mundo contemporâneo. O mito - ou os que se fazem ou foram feitos mitos - são capazes de conjugar autoritarismo e liberdade numa mesma frase sem que ninguém perceba.

A famosa piada do professor que entra em sala e diz: “Hoje vamos falar sobre Democracia”. O aluno que não se intimida pelo mito indaga: “por qual razão professor?”. O mestre responde: “Porque eu quero!”. Quem enxerga a ironia contida no diálogo? Pois, é assim. 

O mito faz coisas semelhantes e ainda é aplaudido. É o bem e o mal para quem tem a preguiça mental de enxergar a genealogia dos valores. Para quem tem preguiça mental de ir no Aurélio saber o que é genealogia e encaixar o significado de forma a entender a metáfora.

Isto sem falar quando os mitos são celebridades. Lembro que a palavra lembra célebre, que por sua vez lembra cérebro. Mas, ultimamente a ligação é com Bunda, Burrice e outros “bbb”s por aí à fora. 

Antes a construção do mito era a mentira bem contada, agora basta o flash e a vitrine? É isso...?

Bah, talvez eu seja mesmo mais um idiota fora do compasso...

Eu fico me perguntando, quem são as vacas de A Fazenda? Cada dia me parece que elas são as que não estão de quatro pés. Mas, chegará o tempo que se alimentará do mesmo capim.

Esta semana uma ex-mulher de um cantor de pagode virou heroína. Eu sei que o vocábulo heroína pode lembrar drogas...mas, não foi este o sentido. Apesar das informações em relação ao episódio serem epicuristicamente anestésicas. E lá se vão os idiotas: ajoelhem-se diante do mito, idiotizem-se diante do mito, aplaudam a burrice do mito, batam punheta para o mito...

Bah, talvez eu seja mesmo mais um idiota fora do do compasso! 

E é nesse mundo que surgem os clichês que nos vendem nos prometendo originalidade! Na boa, eu confesso: estou fora do rock colorido, dos livros de auto-ajuda, dos romances orientais, do artesanal pré-fabricado, acho Crepúsculo a pior merda que já escreveram, acho ridículo cantorzinho mordendo morcego em show, não sei qual é a graça diante de tanta espetacularização da arte quanto até versos parnasianos soam mais sinceros...e por aí vai...

No mais, uma nota de rodapé: eu tenho medo de heróis. Eles usam capas e máscaras e ficam acima do bem e do mal. Só aí, motivos suficientes para temer. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Ser assim...


Entenda bem que há algo que o tempo vai responder por mim
Quando lá na frente você olhar para trás para escutar o que não quis ouvir
Mas não ligue não que há de ser sempre assim
Não há repartição igual, nem bem ou mal, quando se bifurca uma história
É cedo para falar de perdas ou glória...
...apesar de tudo que ainda vou sofrer por aqui...
...dos pesadelos que provocam insônia e não me deixam dormir

Você fala de um depois com as frases prontas que outros amores fizeram por aí
Eu prefiro o silêncio do que o afago dos espinhos que só diminuem a culpa em ti
E daí que a ausência de sentido só faz a solidão ser mais sólida na casa
Antes de você já era a assim
Só não irei nunca mais me acostumar com a forma como sempre vivi
Mas sei lá, se outros rostos estão por vir
Se até o teu rosto por mais que possa voltar não terá mais o olhar que te trouxe aqui

E a varanda que sua ausência transformou em um precipício
A chama que a dor acende não vai me sugar nem me vencer
A hipocrisia da tua fala compassada assumindo os seus erros...
...mas querendo culpar os meus vícios...
É por isso que eu prefiro o silêncio do que o afago dos espinhos que ajudam só a você
Por ir embora, porque tudo aqui já foi dito...
Entenda que há algo que depois de qualquer adeus é só tempo que pode dizer

Teu corpo nu vai estar desenhado em minhas mãos por tempo demais
Por isso durante alguns destes anos meus dedos não saberão por onde correr
Mas faz parte, sei entender que poderia ser assim a qualquer momento
Era só questão de tempo...um dia o vento ia te arrastar e te querer
Não há nada eterno se até os deuses morrem conosco sem nos responder
Há de ser sempre assim...
...todo mundo tem seus dias de querer morrer...
...amanhã você vai me ver sorrir, mesmo que ainda esteja sofrendo por você...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Escol(H)as, escol(H)as...


Qualquer escolha no processo do vestibular deve ser feita em pouco tempo e de forma superficial: Onde se deve colocar o X da questão (literalmente)? “O que eu quero ser quando crescer?” pode até se transformar em outra pergunta muito mais séria – e não identificada em testes vocacionais – que é: “Quantas possibilidades eu estou matando em mim ao assinar este formulário”.

Caramba! Quem é que precisa mesmo destes ritos de passagem? Reduzir o conhecimento universal a questões simples, direcionadas que vão te induzir ao erro. A pressão de tudo saber. Uma panela de pressão sem contador de minutos para tirar a tampa. Não há como escapar sem sequelas. No entanto, a vida corrige os erros. Graças a Deus.

No meu caso, fiz duas faculdades – nenhuma delas foi Filosofia (a que de fato queria, mas cedi aos compromissos mercadológicos e futurísticos) – e a vida corrigiu. Deu-me a possibilidade do jornalismo – que encaro às vezes como ofício/arte e às vezes como filosofia – e me jogou, quando menos esperava, dentro da sala de aula com a disciplina de filosofia e literatura.

Corrigi-me como o cara que faz Direito e vira músico, ou como o cara que faz música e vira empresário, ou como o cara que faz jornalismo e Letras e vira jornalista e professor de filosofia nas horas vagas. É difícil fazer jornalismo e virar apenas jornalista no sentido tecnocrata do artesão da palavra (quem está na profissão deve entender bem isto).

Mas, voltando ao vestibular. No meu primeiro dia de prova, eu fiz parte da galera confronta a diarreia. Minha cabeça lotada de conhecimento se misturava com o desprezo que eu tinha pelo ritual que citei no início. Metade do que aprendi me fugiu a memória. O que é mesmo um anel de benzeno? Às vezes – com um pouco de esforço – lembro de Mendel e do sexo das ervilhas.

Ainda tenho em meus ouvidos os conselhos de meu pai e a lembrança de minha mãe rezando o terço para que eu fosse alguém. Ela achava que Deus cumpriu a parte dele. Eu, já nem sei. A vida continua com suas questões de múltipla escolhas e me dando apenas um “X” para colocar em algum lugar, enquanto é necessário explanar mais as coisas. O vestibular não tem a alternativa “talvez” e isto faz dele extremamente falho. Todo reducionismo é “nosense” demais. Além disto, o principal sempre fica fora de qualquer resumo.

O que lembro do meu vestibular: a proximidade da virada do milênio estampando os jornais e eu pensando: “grande porcaria, o mundo vai ser o mesmo”. Infelizmente, neste quesito acho que marquei a alternativa correta. Queria voltar no passado e mudar o gabarito. Eu me sentia o jogador mais “perna-de-pau” do mundo sendo selecionado para bater o pênalti decisivo em final de copa do mundo. A torcida – neste caso – também era extremamente silenciosa. Como se fez barulho depois...

Todas as minhas habilidades se resumiram a um “X” que até hoje tenho dúvidas se foi certeiro, mas que trouxe – não por ele, mas por diversas circunstâncias de querer ficar na contramão – o melhor e o pior de mim.

Quando os estudantes me perguntam como enfrentar este probleminha, transformado em monstro de 547 cabeças, só me resta dizer: “Enfrentai com naturalidade, desprezai o ritual, estudai e caso não consiga, a vida volta a sua programação normal. Para com esta coisa de só ter uma chance só, um único chute. Enfim. Ás vezes, a bola na trave, ensina mais que o gol”. Pensava nisso, nos vestibulares que perdi. E não foram poucos!

Mas, se existem coisas a serem evitadas durante o clima pré-vestibular, eis algumas: não mate aulas, por mais que os palhaços sejam sarcásticos e grosseiros; não tente suicídio e faça yoga para tentar não ter diarréia; lembre-se que litros de café durante a madrugada não ajudam em nada; todo fim é um novo início (é essencial crer nisto) e que a “lei da selva” não foi ideia sua, por isto sem estresse e sem necessidade de querer ser o “leão”. No vestibular, o último e o primeiro entram de mãos dadas em uma “nova fase” que nem mesmo sabe ao certo o que quer dizer...

Ah, não tente acabar a prova logo. Aprenda a respirar fundo. Durante o vestibular há uma lição que não está nos cursinhos: “Na hora H – a depender de como você se educa para se vê – há mais coisas dentro de você do que pode supor toda a vã sabedoria de macetes e lembretinhos colados na porta da geladeira”. Leia bastante durante todo o processo. Ler é melhor que estudar. Por fim, desrespeite as referências bibliográficas. Não sempre, mas dentro do bom senso. No mais, diante de uma possível derrota, ainda nos resta “todo o tempo do mundo”...enquanto houver tempo e nunca se sabe até quando há. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Faz sentido? Ele é obrigatório?


Estou lendo uma biografia de Albert Einstein. A impressão que se tem é que o personagem é uma fonte inesgotável, seja levando-se em conta as informações ligadas à ciência ou aquelas que envolvem a sua personalidade. Seja - inclusive - levando-se em considerações algumas contradições enaltecidas pelo biógrafo. 

Pois bem, mas não é sobre exatamente isto que quero falar. Mas, o assunto nasceu de dentro da biografia. Um fato que me chamou a atenção: quando Einstein faleceu e seu corpo foi encaminhado para a necropsia, o médico responsável - sem a autorização da família - furtou o cérebro do cientista. O objetivo? Saber o que diferenciava Einstein dos demais mortais. O que tinha de tão especial em seu pensamento; em sua genialidade!

Espantou-me por conta da impressionante busca por resposta que motiva o ser humano a indagações, atos, planos, teorias surpreendentes. O ceticismo da ciência pelo próprio ceticismo, desprendido de moralidade, idealismos, conceitos e até mesmo - em alguns casos - da própria resposta que talvez busque e se acabe encontrando novas respostas.

O que poderia haver de diferente no cérebro de Einstein? Talvez um monte de coisa; talvez não. Fica para quem quiser pesquisar sobre o assunto. O fato é que lá - no cérebro morto - não estava respostas para o que se esperava. Isto não abre portas para nenhum tipo de misticismo, religiosidade. De forma alguma. Abre espaço apenas para mostrar o quão é intrigante a existência e ainda tão distante de ser revelar em seus porquês. 

Tão enormemente bela, tão ausente de sentido e ao mesmo tempo - a depender da fé - qualquer sentido se encaixa nela. A cena da necropsia de Einstein me fez viajar pelo existencialismo de Sartre. Buscar reflexões sobre uma possibilidade de essência que precede a existência, determinando aquela inteligência ali, naquele momento da humanidade, um desenho perfeito, uma equação com resposta pré-programada. Já pensou se quando se abrisse o cérebro se encontrasse exatamente a etiqueta “made in...”!?

Inevitável não pensar em Freud também. Pensar onde o nosso eu se esconde, aquilo que nos diferencia uns dos outros em meio ao orgânico. Será só o eu e suas circunstâncias impulsionando a matéria e suas complexidades a formulação de nossos pensamentos? Ainda pensar: ao que o acaso se destina? Ao que se destina o acaso? Destino? Acaso? Qual é bússola? Há bússola? Há mapa? Qual será desde sempre? Qual foi inventado e repassado, repassado, repassado, ao ponto de ninguém mais pensar em sua autoria...

E por aí vai. É possível numa hora dessas passear pelo Gene Egoísta de Richard Dawkins. Visitar Jonh C. Lennox e suas brilhantes reflexões sobre o cristianismo. Reflexões que se encaixam nas lacunas que cismam encontrar na leitura do darwinismo. Ou ainda falar do arquiteto do universo ao relojoeiro cego. Passear por tantas respostas e não encontrar respostas? É, é possível também. Milagre da existência. 

Lembra de uma entrevista de Dawkins - sem entrar no mérito do que ele pensa - em que ele falou que o cosmos ainda estava a espera de seu Darwin. Se ele certo estiver, daí se vê o tamanho da lacuna. E o que somos nós? Pontinhos invisíveis, imperceptíveis e só de passagem por dentro de um milagre belo que é a existência. E é muita gente querendo explicar tudo sem nem se dá conta do milagre. 

É a segunda vez que uso a palavra milagre aqui. Peço apenas para que não seja dada a conotação religiosa para dela. Corro o risco de não ser entendido pelo que vou dizer agora, mas ouso dizer: eu não preciso de deuses para acreditar na existência de milagres. Eu não vejo a necessidade de explicações complexas para a beleza. A ausência de sentido é simples; assim como a presença de um sentido também. 

A questão é a busca por evidências sobra os lados: ter sentido o não! Os milagres e a maravilha da existência segue aí do mesmo jeito. Os valores e os princípios que trago comigo também. 

O que não quer dizer também que tais milagres não precisem ser compreendidos, observados e contemplados. Claro. Mas, que não esqueçamos de suas grandiosidade diante das necropsias destes. Às vezes, contaminados pelo que queremos encontrar, inventamos respostas por não saber traduzir evidências. É quando começamos  a dar nós em explicações para chegar a tais respostas. 

Eis nossas tarefas de filósofos. Todos somos um pouco. Eu vejo beleza nessas indagações. Posso estar ficando maluco. Se assim acha o leitor, ele tem toda a razão. E assim o texto chega ao fim sem conclusão alguma. Tire agora as suas conclusões (risos)!

Notas de rodapé

1) Sou fã de Charles Darwin, não nego. O Origem das Espécies é um livro que me deixou muito intrigado durante muito tempo.

  1. Lembrei - enquanto escrevia -  de William de Occam agora e da sua fiel navalha. Vale a pena ser conhecido. A noção do princípio lógico de Occam que aponta para que a resposta simples geralmente seja a mais correta. Quem quiser saber mais sobre o cara, é só procurar. 

  1. O lobo da estepe - confesso! - de Hermann Hesse também pode ser encontrado nestas entrelinhas

4) Se o texto não fizer sentido algum, não se surpreenda. O louco aqui sou eu! Pode estar  certo disto!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Quais as novidades da tua próxima novidade?


Explorando os recursos de todos esses aparelhos eletrônicos que nos cercam - iPhone, iPad, computadores, smartphones e por aí vai... - eu fico impressionado no quanto a humanidade avançou. Sempre penso cá comigo mesmo: “caraca, os caras são loucos mesmos, olha o que eles fizeram?”.
Para mim, de uma geração que veio do vinil, do k7, do VHS, os donwloads ainda são pequenos milagres. Estranho por vezes (sim, eu já fiz isso!) não enfrentar uma gigantesca fila em uma loja para a compra de um vinil tão esperado. Estranho por vezes não passar horas com o rádio ligado esperando passar a música certa para apertar o REC e tê-la na minha fita K7. Isto quando não ficava puto por conta do locutor falando no meio da música. Quem é do meu tempo sabe bem o que é isso!
Avançamos demais. “Caraca, os caras são loucos mesmo, olha o que eles fizeram?”. Mas, tipo: “avançamos para onde?”. Tantos suportes eletrônicos já cria uma geração de “webnativos”, de “e-humanos”. Tudo (no caso de alguns aparelhos, literamente) na ponta dos dedos! Abrem tantas portas para o conhecimento, mas - proporcionalmente - são abertas muito mais portas para a imbecilização do humano. 
Para onde estamos indo? Onde esses “caras loucos” com a determinação de colocar em nossa mesa de cabeceira o que há uma década, há dois anos, há dois dias, era impossível vão nos levar? Em 1963, Jonh Kenedy dizia: “no final desta década colocaremos o homem na lua”. A determinação mostrou seu efeito...
O que prova que somos caras loucos sempre conseguindo colocar o impossível para uma geração dentro do campo das possibilidades da geração seguinte. Avanços que talvez os nativos de uma época não enxerguem, mas aqueles que estão no campo da transição podem observar muito bem e fazer render milhares de questionamentos produtivos. Pois é, mas parece que anda faltando tais questionamentos que transcendam as maquininhas e nos revelem para além delas...
Sempre, sempre nos deparamos com o novo. Se deparar com o novo não é novidade alguma. Aliás, vai vê esse culto à novidade é mais um mito. Mas, tipo, quando enxergarmos do que nossa determinação é capaz; quando enxergamos uma meta; investimos em um sonho e nos colocamos a caminhar para isto, enxergaremos de forma bem clara a transcendência de colocarmos invenções maravilhosas em nossas cabeceiras, de termos obras geniais ao longo de séculos que perduram com o direito a serem chamadas de clássico...sim, enxergaremos!
Será que não chegou o tempo, diante de tudo o que já provamos ser capazes de fazer - seja o feio ou belo - de comprarmos, cada um de nós, a determinação de um mundo melhor. Vale ressaltar que a próxima geração terá isto como se fosse nativo. Olha só...mas, mesmo sendo mais difícil, parece ser mais fácil termos um celular com hologramas ainda no final deste mês. Você duvida? Do mundo melhor eu sei que você duvida. Eu falo do celular, evidentemente. Holograma, olha só? Já pensou? Talvez minha filha diga: “holograma, pai? Algo tão natural. Vimos tanto isto na escola!”.
Que a nossa determinação nos traga algo extraordinário, para além da customização das máquinas. Que alguém possa dizer: “em uma década colocaremos mais humanidade e educação por estas bandas”. É tão fácil quanto baixar um aplicativo, pois - por incrível que pareça - o início de tudo pode estar em teus pequenos atos. Posso ser um idiota acreditando nisso. Mas, me xinguem assim ó: “caraca, o cara é louco mesmo, olha o texto que ele fez?”. É, eu sei: fazer textos com tantos caracteres assim é coisa antiga, blog também é coisa antiga já, né não? Pena que a intelorância, a incompreensão, o desamor e a ausência de educação, a guerra, a fome...também não sejam coisas antigas, né? Que pena...mudando de assunto: quais são mesmo as novidades do iPhone 5? Bah, antes do meio do ano que vem o que te espanta será coisa antiga. Mas, o que te espanta mesmo? Eu sigo espantado com coisas antigas, olha só...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Aperto de mão, perto do milagre


Não sei se é impressão minha, mas tenho sentido o mundo cada vez mais veloz. O cotidiano cada vez mais uma máquina de devorar sonhos. O tempo - enquanto invenção mecânica objetiva dos homens a ponto de ser medido nos ponteiros - nos apresenta o desafio de correspondermos a esta perspectiva do mundo pós-moderno, pós-isso-ou-aquilo, pós-qualquer-coisa...
Planos? Bem, o que mais tenho encontrado é gente que tem enchido a mochila com os planos traçados pelos outros; com dificuldade de rasgar mapas. Alunos, que diante da beleza do conhecimento, só assumem como perspectiva o Enem; profissionais que ambicionam os melhores salários; gente que enxerga no rito de passagem o objetivo final sem entender o prazer da viagem. 
Planos? Os cantores de um hit só já andam com biografia na praça: o livro, a música, a camiseta...todos na lista dos 10 mais. Dá para entender a metáfora!? Vou tentar ser mais direto: inteligência à deriva; GPS na mão. 
Planos? A galera que por medo de se encontrar dentro da solidão se entope de prazeres artificiais. Com pouco a pensar evitam essenciais crises existenciais. Pensar dói. É maiêutica, que é sinônimo de parto natural. Estranho plano pós-moderno: abdicar de si mesmo, da autenticidade, em nome da ciranda destes tempos velozes. De um lado a corrida frenética pelas perspectivas impostas pela vida social. Do outro, confortavelmente anestesiado no padrão desta mesma sociedade de consumo. Nem sei se me faço entender, mas assim como digo, assim repito: aqui é só um papo de quinta de mais um maluco no pedaço!
E se eu tenho planos? Tenho, claro! Os mais objetivos são iguais aos de todo mundo: crescimento profissional, ser bom pai, bom esposo, enfim...vai na lista, os semelhantes também. No campo da subjetividade, não quero ser melhor que ninguém. Não odeio ninguém. Juro! Mas, sempre quero ser melhor do que eu mesmo e isto inclui desligar o GPS e enfrentar a turbulência das essenciais crises existenciais. Inimigas tão amigas. Quem vai entender se eu aqui colocar que são estas crises que me levam a beira do precipício e que são elas que me fazem não pular. 
Pessoas temem a solidão? Eu também, mas ela ajuda no auto-conhecimento. Talvez o lance seja achar a medida certa da dose e assim diferenciar de quando é remédio para escaparmos dessa velocidade, e de quando é simplesmente veneno, nos leva ao desespero, ao achar que somos os únicos malucos no pedaço. Por falar nisso, li uma vez em algum lugar: que a tristeza extremada pode ser uma forma de egoísmo. Acabo de perceber que pode fazer sentido. 
Planos? Evitar a zona de conforto, não virar cover de si mesmo em meio ao cotidiano, saber que muita coisa que aparenta ser normal e natural pode ser encarada como absurdo, como ter que pagar plano de saúde, como ter que pagar por água potável, enfim...como achar que arte (o produto intelectual mais belo da humanidade) tem que ser sempre pirata...absurdos da normalidade. Planos? Ter tempo para enxergar tudo isto. 
Planos? Se um dia lançar um livro ter a capacidade de me dedicar a cada dedicatória como se só existisse eu e aquele leitor! Planos? Acordar sempre com a certeza de que os dias são sim diferentes...no mais: os planos são piadas diante do milagre de estarmos vivos! É, vai ver é isso. Mas, um belo plano é justamemte se esforçar para não perder a capacidade de enxergar tais milagres. Viu? Acabou de acontecer um agora...do nada, eu e você - caro leitor - demos as mãos sabe-se lá de qual lugar. Você sabe-se lá onde está; eu sabe-se lá onde estou.
Espero que quando soltarmos as mãos um do outro este aperto tenha valido a pena. Que seja um bom milagre! :)